Advocacia corporativa no novo normal, a manutenção da cultura nas equipes e a aferição de resultados

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Velhos desafios em novas roupagens

Por Leonardo Leite

Há muito aprendemos que o tempo não para e não volta. De alguma forma sempre “caminhamos” para a frente.

Ainda que, logicamente, algumas coisas “retornem” após um certo tempo, já não voltam exatamente para o ponto em que antes estavam (ou como eram).  

No período entre o passado e o futuro, ainda que esse futuro tenha algo do que passou, não se pode deixar de lado a contribuição do presente, que sempre gera ajustes e modificações.

Notamos, por exemplo, em hábitos, práticas e objetos “vintage” ou “retrôs”, um desejo do retorno e do culto ao passado, mas em verdade costumam ser “releituras” e novos usos, ou apresentações, do que antes havia. Trata-se em geral de uma volta ao passado, mas em uma nova “roupagem”.

Mesmo carros, uma das paixões humanas dos últimos dois séculos, quando reunidos em clubes ou eventos ligados aos “antigos e clássicos”, frequentemente contam com “melhorias” e adaptações.

Eletrodomésticos, roupas e vários outros itens costumam “voltar”, mas via de regra com o toque de atualização, ainda que por vezes pequeno.

O mundo corporativo também é mais ou menos assim.

O retorno ao passado, mesmo que desejável, nunca é exatamente uma volta perfeita. Nunca se volta de fato ao passado, pois tudo o que se passou entre aquele passado e o que se deseja com o “retorno” foi vivido, e gerou marcas e aprendizado.

Em outras palavras, sempre um pouco do que se passou nesse período é adicionado ao que havia no passado, se possível “o passado é melhorado”.

Dessa forma, práticas e sonhos saudosistas podem até ganhar força, e periodicamente isso ocorre mesmo, mas quando aplicados de fato, já se mesclam a uma nova realidade. E assim criamos e construímos o futuro.

Grandes crises como as climáticas, econômicas, ambientais, políticas e mesmo guerras ou revoluções, bem como desastres naturais e pandemias, geram um certo caos. E é comum que as pessoas, nesses períodos, sonhem com a volta ao que antes conheciam e vivam.

Nós tendemos a nos acostumar com as rotinas, o jeito de fazer as coisas e vamos criando hábitos – que nos deixam confortáveis.

Quando passamos por períodos de “confusão” ou até de caos ou grandes rupturas, é natural que num primeiro momento, além do desconforto e do susto, surjam desejos de retorno, de volta ao que se tinha ou fazia antes. O saudosismo pelo conforto do conhecido.

Costuma-se, nesses períodos, sonhar com, e esperar pelo, retorno ao normal (ou seja, ao que se tinha ou conhecia antes).

Ocorre, porém, que esse “retorno” nunca é absoluto, e em geral não é totalmente possível, pois o próprio caos e as dificuldades vivenciadas durante a ruptura geram restrições, ajustes, adaptações e aprendizados – que serão naturalmente aplicados e aproveitados.

Costumamos observar que alguns dos “jeitos” que precisamos dar para lidar com a situação nova e que de início estranhamos, por vezes ajudam a criar práticas melhoradas ou mais adaptadas do que se fazia antes. E, em função disso, o retorno já não costuma ser exatamente ao ponto original.

Ao longo de guerras, revoluções, grandes desastres, crises profundas, rupturas e pandemias, é frequente o desejo de muitos de voltar ao normal.

Mas que normal seria esse? E será mesmo que se pudéssemos escolher e decidir preferíramos retornar exatamente ao passado? Será que gostaríamos de efetivamente abrir mão de todo o aprendizado decorrente do que se viveu durante a crise?

O que se chama, portanto, de “retorno ao normal”, em verdade é uma terceira figura, um “novo normal”.

A pandemia de 2019-2020, por exemplo, afetou, e muito, o mundo todo, todos nós (no planeta inteiro) e deixou marcas. Muitas delas doloridas. E como toda crise, passa – com mais ou menos sofrimento e sequelas, mas passa.

Nesse mesmo contexto, todos aprendemos bastante, e tivemos que nos ajustar e adaptar, em muitos aspectos, de forma que o “retorno ao normal”, nas nossas atividades pessoais e profissionais, na realidade será a criação de um “novo normal”.

Na mesma linha, temos que observar os desafios que tínhamos antes da ruptura, os que ao longo dela vivemos, e estimar os que virão pela frente – quando o caos for controlado.

Alguns desafios, dificuldades e até problemas já conhecidos, “voltarão” ou continuarão a existir – mas com nova roupagem.

Como será o novo normal nas empresas que operam no Brasil, e na nossa estimada Advocacia Corporativa?

Será que o retorno ao normal será muito parecido com o que conhecíamos ou os ajustes serão profundos?

Cada um terá a sua própria realidade e resposta. Até mesmo porque as empresas e as pessoas nunca são, e nesse episódio também não o foram, afetadas exatamente da mesma forma e na mesma magnitude, o que gerou dores, aprendizados, ajustes e adaptações diferentes.

O que sabemos é que todos seremos (e já somos) diferentes do que éramos antes.

Os desafios costumam ser muitos e profundos, e os ajustes também, desde os cortes de recursos e de pessoas, a convivência não necessariamente presencial, as tecnologias que se desenvolveram e popularizaram, assim como as novas rotinas.

Temas já tradicionais como o estabelecimento de prioridades, a gestão das crises, o trabalho em equipe e o seu formato, fluxos de informação e de trabalho, a questão e o perfil da liderança, as emoções e os relacionamentos, assim como a construção e a manutenção da cultura, além da aferição de resultados tiveram que ser, também, revisitados.

O “novo normal” pós pandemia de 2019-2020 certamente será construído com muito cuidado, muita tecnologia e muitos ajustes à maneira como vivíamos e trabalhávamos antes dela.

Como dissemos acima, o detalhe das adaptações varia muito de pessoa para pessoa, de empresa para empresa, de segmento para segmento, mas alguns pontos nos parecem ter um certo alcance geral, tais como a redefinição do papel da tecnologia e das telecomunicações, a revolução do conceito de local de trabalho e de “home office” ou teletrabalho, a maneira de se trabalhar, o papel reservado ao contato pessoal físico, e os alinhamentos nas equipes.

Tínhamos alguns conceitos e alguns padrões, que via de regra foram colocados em cheque. E tínhamos formas de construir e de disseminar cultura – também em cheque. E a maneira de se controlar as atividades das equipes e de se aferir os resultados? Também. Tudo isso esta sendo rediscutido.

Muitos perceberam que poderiam trabalhar melhor, e talvez até mais em casa. Com outros foi o contrário.

Como vários já disseram, entramos todos na mesma tempestade, mas como barcos diferentes – e sentimos os efeitos de maneira diversa também.

Várias pessoas e equipes perderam produtividade, assim como unidade e motivação, e líderes foram desafiados a ajustar estilos e práticas, mas com outros exemplos tudo transcorreu de outra maneira.

Alguns perceberam ou conseguiram comprovar que a ida física ao local de trabalho padrão poderia não ser tão necessária ou essencial. Para muitos outros ocorreu o contrário e percebeu-se que estar fisicamente com o grupo, e no local de trabalho, bem como as práticas acessórias (como o deslocamento, os horários de repouso e até de lazer, bem como as conversas no cafezinho e no corredor) tem o seu valor.

Grande parte do desafio na construção desse novo normal caberá aos gestores e às equipes de recursos humanos, para criar, adaptar ou ajustar práticas e ferramentas para lidar com os desafios do “novo normal”.

Acredita-se que a parceria com as equipes de recursos humanos será ainda maior, pois o aspecto humano terá que ser resgatado ou até reconstruído.

Também o papel da tecnologia terá que ser rediscutido, pois se na pandemia ela muito ajudou, vimos também uma infinidade de pontos que robôs, “softwares”, sistemas e algoritimos não resolveram – e pudemos comprovar que o valor do humano é ainda maior do que muitos acreditavam ser.

O mundo pré-pandemia corria o risco de migrar para um conceito em que muitos acreditavam que o digital tomaria conta das profissões e das práticas, mas não tomou. E frequentemente ocorreu o contrário.

Muitos finalmente perceberam que nem tudo pode ser delegado às máquinas, as vezes porque elas não dão conta. As vezes porque não queremos abrir mão das pessoas.

A verdade e o ponto central deste breve artigo é que o normal será novo, em maior ou em menor escala, mas será. E precisaremos nos ajustar e adaptar – especialmente os gestores.

Sem propor soluções ou alternativas mágicas, portanto (até por não serem iguais para todos), mas apenas registrando preocupações que nos parecem ser de muitos, os líderes e os gestores precisarão, sem dúvida, desenvolver novas formas e ferramentas de motivar as pessoas e as equipes (talvez as novas equipes precisem ser organizadas de outras formas, e com pessoas que contem com outras habilidades e competências), lidar com pessoas que trabalhem bem em conjunto ou separadas, e como estabelecer rotinas, práticas e formas de controle do trabalho e dos resultados.

Para os mais “seniores” e experientes há mais tempo, tomamos a liberdade até mesmo de mencionar que os “antigos” sistemas e modelos de gestão e de administração, como os famosos organogramas de outros tempos e o padrão “ford” (por exemplo), entrarão em releitura e ajustes, pois o mundo “é outro”.

As mudanças costumam ser boas e positivas, mas demandam uma certa fase de ajustes e de aculturamento.

Temos muito a fazer doravante e inclusive que aprender a viver no novo normal.

Sejamos otimistas e positivos, mas também cuidadosos, pois teremos todos que aprender a viver e a trabalhar nessa nova “realidade”.

Biografia do Autor

LGPD Leo Leite Advocacia

Leonardo Barém Leite é advogado em São Paulo, especializado em negócios e em advocacia corporativa, sócio sênior da área empresarial de Almeida Advogados, com foco em contratos e projetos, societário, governança corporativa, “Compliance”, fusões e aquisições (M&A), “joint ventures”, mercado de capitais, propriedade intelectual, estratégia de negócios, infraestrutura e atividades reguladas.

Formado em Direito pela Universidade de São Paulo (“São Francisco”) com especialização em direito empresarial, pós graduado em administração e em economia de empresas pela EAESP-FGV/SP, bem como em Gestão de Serviços Jurídicos pela mesma instituição. Pós-graduado em “Law & Economics” pela Escola de Direito da FGV/SP, especializado em Direito Empresarial pela Escola Paulista da Magistratura (EPM) e em Conselho de Administração pelo IBGC/SP. Mestre em “Direito Norte Americano e em Jurisprudência Comparada” pela “New York University School of Law” (NYU/EUA). É membro de diversos conselhos de instituições brasileiras e internacionais, autor de diversas obras sobre gestão jurídica estratégica e direito empresarial, professor em cursos de pós-graduação. Integra várias comissões e comitês de advocacia corporativa em São Paulo e em outros estados. É professor em cursos de especialização em Gestão Estratégica de Departamentos Jurídicos de Empresas na FIA e na FAAP, em São Paulo, e autor de livros sobre o assunto. Foi sócio do escritório Demarest e Almeida – Advogados onde atuou por mais de 20 anos, e também advogado estrangeiro no escritório Sullivan & Cromwell em NY e na Europa nos anos 1990.


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