A nova advocacia corporativa e os novos ambientes e modelos de negócios

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Novos e mais papéis para os advogados nas empresas

Por Leonardo Leite

Praticamente tudo no mundo, e na vida, muda o tempo todo e, idealmente, melhora e evolui. O mesmo acontece no universo empresarial – e precisa ocorrer, também, na Advocacia Corporativa.

Reavaliações, reflexões, iniciativas de ajustes e de melhorias são constantes no nosso trabalho, e tornam-se ainda mais importantes e urgentes quando as empresas e os ambientes de negócios se reorganizam.

Grandes crises, como as econômicas, as políticas, as sociais, e a sanitárias e pandêmicas (especialmente as que afetam as estruturas dos negócios, em função do seu alcance e magnitude), dificilmente ficam restritas a apenas poucos setores ou regiões. Via de regra, tornam-se total ou parcialmente “gerais”.

Nesse sentido, é fundamental que rapidamente percebamos essas mudanças, e os seus gatilhos, e que aos ventos inovadores nos adaptemos. Sendo ainda melhor, se pudermos nos antecipar a tendências – e colaborar com a construção do “novo”.

Um dos desafios do que já chamamos de Nova Advocacia Corporativa é justamente ir além do que já se esperava dos advogados. Temos que ir além e fazer mais do que “apenas” gerir riscos e ajudar a viabilizar negócios, procurando sugerir inovações e ajustes, inclusive os mais profundos.

O profissional dos anos 2020 precisará ter uma nova mentalidade e conseguir demonstrar o seu valor ainda mais rapidamente do que antes.

Praticamente todo mundo na esfera corporativa está avaliando e procurando cortar custos, passando em vários casos por unidades, departamentos, equipes e pessoas. Muita gente precisará se reinventar, e conseguir provar que é realmente necessária nas empresas.

Como em geral ocorre com as crises, se este momento pode ser uma ameaça a muitos advogados, pode e precisa ser visto como uma grande oportunidades para outros.

A pandemia de 2019-2020 (decorrente do Covid-19) deixou e seguirá deixando marcas em todos nós, afetando pessoas, famílias, empresas, setores, cidades, países etc.

Se toda crise apresenta também oportunidades e aprendizados, a proposta deste breve artigo é convidar o leitor a refletir sobre o que a Advocacia Corporativa pode, e deve, fazer.

Proporemos uma análise profunda e ampla, que cada um terá que fazer,  para não apenas sobreviver e seguir mostrando a sua importância e o seu valor para os negócios –  como para também, se possível, ajudar ainda mais. E tornar-se mais estratégico.

Desde (pelo menos) o início dos anos 2010 já se falava no “mundo 4.0”, e em seus conceitos similares ou dele decorrentes, que em maior ou em menor escala abordavam a automação, a inteligência artificial e a “vida digital”. Falávamos, também, da Advocacia 4.0, sobre a qual muito falamos e escrevemos.

Falávamos muito no futuro da advocacia e no que os robôs, os sistemas, os “softwares”, os algorítimos e a inteligência artificial (em suma, as máquinas) fariam. E, em como seria essa nossa “Nova” convivência, assim como no que passaria a ser o papel dos humanos.

Em alguma medida esse diálogo permanece em tela, mas já está sendo impactado pela “evolução dos tempos” e tomando novos contornos.

Ainda se precisa entender o que cada um – máquina e pessoas – pode realmente fazer melhor, não apenas em termos de preço e tempo, mas em qualidade e acerto.

O que se dizia até 2019 sobre ser preciso avaliar com muito cuidado e responsabilidade o que pode de fato delegar “às máquinas” continua sendo verdade.

Ocorre, porém, que mesmo os conceitos então modernos da economia e da indústria 4.0, que foram sendo ampliados e adaptados para o mundo corporativo em geral, foram e serão cada vez mais impactados pela realidade cotidiana – como as crises e a pandemia.

O conceito geral permanece, mas agora precisando ser avaliado de forma a incluir o que se aprendeu e ajustou com a pandemia.

As “máquinas” ajudam e muito, são mesmo fundamentais, mas nem elas estavam preparadas para lidar com a nova realidade ou podiam prever como tudo se passaria. Foram e são as pessoas que tiveram as ideias, e que precisaram pensar (e muito) sobre o que fazer, avaliar cenários etc.

Nenhuma “máquina ou computador” tinha sido programada para o que vivemos e foram as pessoas realmente experientes, bem preparadas e com muito conhecimento que foram apresentando caminhos.

Tudo isso ocorreu e continuará ocorrendo com a Advocacia Corporativa estratégica.

Ainda que seja muito cedo para uma avaliação profunda e completa de todo esse novo contexto corporativo, e que não se consiga pensar (por enquanto) em previsões “reais” para o futuro, já se pode perceber que alguns pontos do que antes de pensava e pregava foram impactados.

Pouca gente poderia pensar ou imaginar que o mundo sem a pandemia de 2019-2020 seria tão virtual, tão eletrônico, tão “dependente da tecnologia e das telecomunicações”, mas na mesma linha, pouca gente poderia pensar ou imaginar que seria, também, tão humano, desafiador e necessitado das pessoas.

Poucos ou nenhum de nós previa antes da pandemia esse retorno ao debate pessoal x virtual, presente x distante, emocional etc., da forma como o fizemos em 2020.

Muitas (muitas mesmo!!) das atividades que não foram “suspensas” (algumas até “enterradas”) passaram a ocorrer de forma digital/eletrônica, por vezes combinadas com o chamado “home office”. Muita coisa passou a ser feita “a distância”.

E, em grande medida, tudo isso foi possibilitado justamente pela tecnologia e pelo “automático”, e pelo “digital”. Que cada vez mais “veio para ficar”. Precisamos reconhecer isso.

Outras atividades, também entre as que não foram suspensas ou “enterradas”, foram bastante impactadas pelo seu entorno, como capacidades, realidades, decisões e possibilidades de fornecedores, parceiros, colaboradores e clientes. Temos também que avaliar essas situações.

O conceito de reunião mudou, de trabalho em equipe mudou, de local de trabalho mudou, e mesmo o horário, passando pela vestimenta, pelos códigos de conduta e até pelo estilo de atuação e de contato. Muita coisa mudou.

O tempo confirmará quais dessas mudanças e adaptações chegaram “para sempre” – e quais serão temporárias, mas é fato que os ajustes para o “futuro” e para o “novo normal” serão grandes e profundos.

Empresas, profissionais, equipes de RH e todos os tomadores de decisão terão que se adaptar, e provavelmente rever o uso da tecnologia, o “layout”, o tamanho e os espaços de trabalho, as escalas, os fluxos etc.

Muitos dizem que “o mundo” será outro, tamanha a mudança e a quantidade e a profundidade dos ajustes. Em alguns anos saberemos.

Espera-se ajustes enormes quanto à arquitetura de edifícios, andares, fábricas, lojas, escritórios e até das moradias, afetando imóveis, moveis, equipamentos, rotinas, fluxos, processos e estruturas.

Como serão os serviços financeiros/bancários, como faremos compras, como assistiremos filmes, como viajaremos (e para o que), como conviveremos com as pessoas, as famílias e os colegas de trabalho? Moraremos e trabalharemos em espaços maiores ou menores, nos grandes centros ou na zona rural (ou a beira mar)? A mobilidade urbana será afetada? E quais serão os efeitos e os resultados disso tudo? Ainda é cedo para “cravar” respostas, mas tudo será impactado.

De outro lado, tem sido evidente a necessidade e a importância do retorno “ao humano” e “ao pessoal”, que para muitos parecia ser algo “fora de moda” e que voltou com tremenda força.

Como os profissionais serão recrutados e treinados, como se alinharão com as equipes, como seremos contratados e venderemos o nosso trabalho? O que será cada vez mais virtual e digital, e o que passará a ser (ou voltará a ser) presencial?

O equilíbrio entre esses conceitos e tendências, na verdade, ainda está por vir – e vamos acompanhar.

Certamente a nova realidade não afetará a todos da mesma forma, sendo preciso ajustar conforme cada realidade empresarial, setorial e até geográfica. Percebamos isso, e dessa reflexão virão as ideias e as inovações.

Sabemos, de toda forma, que empresas, negócios, setores e em alguma medida todo o mundo corporativo precisarão de ajustes. Os modelos de negócios estão sendo modificados e adaptados. Alguns precisarão ser totalmente repaginados.

Este breve artigo pretende, justamente nesse ponto, convidar o leitor advogado corporativo a avaliar o seu papel nesse novo cenário. E provocá-lo a, mais uma vez, “pensar fora da caixa”, romper preconceitos, e inovar.

A Advocacia Corporativa deve não apenas adaptar suas práticas a esse novo desafio, como, se possível, ir além e ajudar as empresas e os negócios ainda mais, participando da construção do “futuro”.

Se é certo que todos teremos que nos adaptar, no mais puro estilo “Darwin”, e que aos advogados corporativos cabe apoiar os negócios e ajudar a viabilizar projetos, propomos que se vá ainda mais à frente. Que se tente “chegar antes” e sugerir ajustes e melhorias, e a revisão de produtos, serviços, fluxos, processos, padrões, modelos e negócios.

Como ninguém de fato sabe como será o futuro e como nos devemos preparar para ele, porque não convidarmos os advogados a pensar juntamente como os demais executivos, nas nossas empresas?

Mudanças e ajustes dessa magnitude “afetam a todos”, e ninguém (realmente ninguém) estudou para isso, ou para tanto estava preparado, assim como ninguém tem a fórmula certa, ou a experiência necessária. Ou seja, todos podemos e devemos ajudar. Advogados Corporativos – apresentem-se para ajudar a inovar!!

Esse momento pode e deve ser super aproveitado pelos advogados corporativos que estiverem preparados, e que tiverem o perfil realmente inovador, criativo e empreendedor, para que, dentro do estilo e da cultura da empresa, proponham inovações.

Acreditamos que o advogado tenha agora uma enorme oportunidade de (respeitada a cultura da empresa) mostrar muito mais as suas ideias e as suas propostas, mostrar que conhece não apenas a empresa, mas o negócio – a ponto de inclusive ir além do apoio e passar a propor, a sugerir inovações empresariais.

Se o advogado corporativo moderno, como temos pregado desde os anos 1990, precisa ser um “viabilizador” de negócios (dentro da lei e da ética), aplicando uma gestão de riscos contemporânea e criativa, o dos anos 2020 precisa fazer ainda mais. Precisa também ajudar a pensar o negócio em si, e propor caminhos, inovações e ajustes.

Naturalmente, a própria equipe e mesmo o trabalho dos advogados estão sendo afetados, e doravante serão diferentes, mas a ideia é irmos além disso. Além “apenas” da advocacia em si.

Talvez esses novos tempos passem a ser chamados em algum momento de indústria e também (por extensão) de advocacia 5.0 (ou algum “apelido” que igualmente demonstre uma evolução/adaptação do 4.0), mas mais do que o nome defendemos o conceito.

Acreditamos que esteja surgindo, mais uma vez, uma Nova Advocacia Corporativa, com advogados sendo ainda mais considerados executivos nas empresas.

Muitos negócios, segmentos, empresas “fecharão as portas” se não forem reinventados e adaptados, e com eles muitos e muitos empregos, diretos e indiretos.

Advogados terão muito mais valor e visibilidade, bem como importância, se conseguirem ajudar os “business partners”, e a alta gestão a identificar e a aproveitar oportunidades – para o agora e para o futuro.   Novos tempos estão chegando, e com eles novos desafios e novas oportunidades.

Biografia do Autor

LGPD Leo Leite Advocacia

Leonardo Barém Leite é advogado em São Paulo, especializado em negócios e em advocacia corporativa, sócio sênior da área empresarial de Almeida Advogados, com foco em contratos e projetos, societário, governança corporativa, “Compliance”, fusões e aquisições (M&A), “joint ventures”, mercado de capitais, propriedade intelectual, estratégia de negócios, infraestrutura e atividades reguladas.

Formado em Direito pela Universidade de São Paulo (“São Francisco”) com especialização em direito empresarial, pós graduado em administração e em economia de empresas pela EAESP-FGV/SP, bem como em Gestão de Serviços Jurídicos pela mesma instituição. Pós-graduado em “Law & Economics” pela Escola de Direito da FGV/SP, especializado em Direito Empresarial pela Escola Paulista da Magistratura (EPM) e em Conselho de Administração pelo IBGC/SP. Mestre em “Direito Norte Americano e em Jurisprudência Comparada” pela “New York University School of Law” (NYU/EUA). É membro de diversos conselhos de instituições brasileiras e internacionais, autor de diversas obras sobre gestão jurídica estratégica e direito empresarial, professor em cursos de pós-graduação. Integra várias comissões e comitês de advocacia corporativa em São Paulo e em outros estados. É professor em cursos de especialização em Gestão Estratégica de Departamentos Jurídicos de Empresas na FIA e na FAAP, em São Paulo, e autor de livros sobre o assunto. Foi sócio do escritório Demarest e Almeida – Advogados onde atuou por mais de 20 anos, e também advogado estrangeiro no escritório Sullivan & Cromwell em NY e na Europa nos anos 1990.



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