O despreparo da liderança para questões humanas — além das técnicas

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Por Leonardo Leite

Os anos 2000 trouxeram um pouco mais de consciência da importância do equilíbrio entre as competências técnicas e as comportamentais nas organizações. E, há um bom tempo, falamos sobre a urgência do foco nos “soft skills” – especialmente na liderança.

Conquistamos uma razoável evolução se considerarmos que os padrões antigos (muitos dos quais sobreviviam desde a revolução industrial) eram ultrapassados; e já totalmente inadequados.

De alguma forma, porém, muitos executivos seguiram pensando nas (novas) competências apenas com o viés de gerar mais resultados (financeiros).

Os resultados que a sociedade agora valoriza (inclusive muitos dos investidores que já se envolvem com o conceito ESG) vão bem além dos números, precisando incluir o fato humano.

Poucos foram (e são) os efetivos líderes que realmente se preparam para liderar pessoas, lembrando-se do básico – de que são pessoas!!

Infelizmente muitos continuaram a enxergar seus “liderados” como mera força de trabalho, como um simples meio de produção.

Esses, continuaram (ainda que em alguns casos com uma roupagem renovada) a simplesmente mandar e cobrar. E, quando o resultado não vinha, substituir força de trabalho.

O Mundo Corporativo confundiu, por muito tempo, a liderança com o motor que cobra (quase como um feitor), que exige resultados, que estimula a produtividade e que cuida dos fatores técnicos.

Por vários anos, o chamado “líder” foi erroneamente assim identificado por muitos departamentos de recursos humanos (nas organizações) para denominar o mero “chefe”. Esses “falsos líderes”, eram e são profissionais que (repetimos) apenas cobram e mandam.

Esquecemo-nos do que talvez seja o principal aspecto da liderança de pessoas realmente preparada para a função, que é o fator humano.

Muitos dos que equivocadamente chamávamos de líderes conheciam, e em função disso valorizavam e privilegiavam, aspectos técnicos. Como se todos fossemos máquinas, e até robôs.

Felizmente agora (nos anos 2020) já se percebe que esse tempo ficou para trás.

A excelência na gestão exige cada vez mais questões humanas e comportamentais, passando por competências e habilidades que serão mais e mais valorizadas.

A “mera” geração de produtos está sendo substituída por máquinas, de forma que aos humanos, felizmente, tocará sermos cada vez mais humanos.

Situações de crise geral extrema, que mexem com todos, e que afetam sobremaneira as pessoas em suas emoções, e em seus sentimentos – como a “pandemia de 2019-2020”, colocaram luz nessa questão.

O descontrole econômico que abalou o planeta e praticamente todos os negócios e segmentos gerou adaptações emergenciais para as quais ninguém estava preparado e nem havia sido treinado. Ninguém.

Mas a forma como cada um lidou com o desafio fez toda a diferença!

Em diversas organizações, a liderança se manteve fiel aos antigos padrões da “chefia”, e ocupou-se em manter a “máquina funcionando” e “buscando” resultados. Era apenas o básico….

Esse modelo antigo, que talvez tenha feito algum sentido no passado, felizmente foi superado pela realidade e pela necessidade do olhar humano, já não “servindo” mais. Já não bastava gerar apenas “resultados”.

Ainda que nenhum de nós estivesse preparado para a tempestade, felizmente alguns líderes, e algumas organizações, conseguiram rapidamente acolher as equipes no aspecto mais profundo, e cuidar das pessoas. Essas sim cresceram com a crise!!

Temos sim que buscar resultados e entregar o que as organizações precisam, pois todos temos que gerar riqueza, que produzir bens e serviços, e que pagar as nossas contas. Claro que sim. Mas de preferência mantendo nossos profissionais sadios e inteiros!

Mais do que focar apenas na geração de faturamento, lucros, produtos, números e até empregos, algumas organizações melhoraram, cresceram e tornaram-se mais ricas. Outras empobreceram…

Em pouco tempo perceberemos as empresas que aprenderam com a crise, e as que perderão reputação e pessoas em pouco tempo.

Com muita tristeza todos ouvimos uma infinidade de relatos sobre chefes e instituições que (ao longo da crise) apenas se ocupavam com a produção, e com a entrega aos clientes. Muitas levaram pessoas à depressão, à ansiedade, à saturação.

Sabemos que manter as organizações “funcionando” foi fundamental, até mesmo para preservar os empregos e os salários. Mas líderes “de verdade” tiveram que “ir bem além disso”.

A maioria, lamentavelmente, esqueceu-se de suas próprias equipes. E de, ao menos, saber como de fato estavam e do que precisavam. Em sua intimidade emocional.

Essa postura puramente “produtiva” é tão chocante e “velha” quanto equivocada, pois “além de tudo”, leva as equipes à exaustão e ao abalo – o que mesmo no aspecto puramente produtivo é contraproducente.

Em muitos casos, até os departamentos de recursos humanos, buscaram socorro no que tinham aprendido e utilizado em outras situações. Não dava!

Talvez pela primeira vez na história recente, o mundo todo estava despreparado. E sem referências para resgatar e utilizar. Precisamos todos de uma certa reinvenção. O passado ficou para trás em muitos dos mecanismos de gestão antes festejados.

Líderes e empresas que conseguiram perceber essa questão humanitária a tempo, certamente fortaleceram suas equipes – especialmente durante a crise.

Quem procurou no repertório aprendido anteriormente uma maneira de lidar com suas equipes, para tentar manter a produção no auge da crise, ajustando apenas questões técnicas e estruturais, certamente errou.

No primeiro momento, quase todas as atividades afetadas tiveram que buscar formas de trabalhar remotamente com o uso da tecnologia. Em muitos casos essa etapa foi bem sucedida.

O ponto que, entretanto, logo na sequência surgiu, foi justamente o despreparo para lidar com o fator humano, com as pessoas das equipes, e como o que elas mais precisavam – atenção, acolhimento, carinho e respeito.

Pessoas precisam ser vistas e tratadas como pessoas!!!

Que pena que tantos líderes não se tenham atentado para isso. Mas busquemos agora o reconhecimento dos que conseguiram e aprendamos com os erros dos “chefes”.

Reflitamos todos sobre nossas próprias posturas e atitudes ao longo desse período e sobre como lidamos com nossos familiares, nossos cônjuges, vizinhos, amigos, colegas de trabalho e colaboradores.

Procuremos a evolução real, que produza seres humanos melhores, que sejam profissionais mais produtivos como consequência.

  Nesse período, muitas e muitas pessoas adoeceram, perderam familiares, tiveram problemas financeiros em suas famílias, e tantas outras dores. Poucos líderes sequer se ocuparam dessas questões.

A distância entre as pessoas e a liderança, em inúmeros casos, era tão grande que muitas organizações sequer ficaram sabendo das perdas pessoais de suas equipes. Muitos nem mesmo perguntaram!!

A ânsia de produzir e de entregar resultados cegou muita gente, e abalou estruturas e equipes de forma tão profunda, que muitas não resistirão ao período “pós pandemia”. Diversos colaboradores nem mesmo querem continuar as organizações quando a crise passa.

Muita gente trabalhou tanto, mas tanto, que no ponto alto do estresse já não tinha nem mesmo horário para um mínimo de repouso.

A maioria de nós passou a não apenas trabalhar mais horas em suas atividades exclusivamente profissionais, como teve, também, que cuidar (muito mais do que antes) dos afazeres domésticos, das famílias, de pessoas doentes, das aulas dos filhos etc.

O apoio emocional em “cadeia” foi fundamental para todos nós, mas infelizmente poucas empresas entraram na corrente.

Em algumas organizações aspectos técnicos receberam algum apoio, como aumento de estrutura tecnológica e até mobiliário. Outras passaram a fornecer cursos e treinamentos para que as questões ligadas à atividade central.

Contudo, o que mais faltou foi realmente o acolhimento ao ser humano, a como cada um (de fato) estava lidando com todo o contexto pessoal (e familiar), e em especial com as suas emoções.

Muitos de nós passamos meses isolados, de tudo e de todos, muitos inclusive afastados de seus familiares mais amados (que em diversos casos inclusive faleceram no período).

Na sua organização, alguém da liderança realmente se ocupou do fator Quantos de vocês, líderes, conversaram de verdade (de verdade!!) individualmente, com cada pessoa da sua equipe para conhecer a realidade dela ao longo das “quarentenas”? Quantos se preocuparam em saber se a pessoa estava bem, se estava conseguindo dormir e se alimentar, se havia alguém doente na família? Quem perguntou o que a sua equipe de fato (de fato) precisava?

Certamente esse será um dos grandes aprendizados do período, para a sociedade em geral e para o mundo corporativo em especial.

   Quem não “cuida dos seus” não merece ser líder!!

Nos próximos tempos, vamos avaliar com mais calma e profundidade tudo o que aconteceu, e a postura de cada um ao longo da pandemia.

Naturalmente, poucos profissionais pensaram em “mudar de emprego” no auge da crise, inclusive por conta da situação econômica e do altíssimo desemprego no período. Mudanças chegarão depois… quando as coisas “se acalmarem”.

Profissionais que tiveram líderes realmente humanos, e que se preocuparam com a produtividade e a entrega de resultados sem esquecer das pessoas, serão lembrados e valorizados. Os demais, certamente, procurarão pessoas melhores e mais humanas para as suas vidas.

Reflita sobre o líder ao qual você se reporta, e sobre o líder que você mesmo Sua empresa ou organização, está saindo melhor e maior da crise, ou empobreceu?

Pode ser que ainda se tenha tempo de salvar a sua equipe. Foque no fator humano!

Biografia do Autor

LGPD Leo Leite Advocacia

Leonardo Barém Leite é advogado em São Paulo, especializado em negócios e em advocacia corporativa, sócio sênior da área empresarial de Almeida Advogados, com foco em contratos e projetos, societário, governança corporativa, “Compliance”, fusões e aquisições (M&A), “joint ventures”, mercado de capitais, propriedade intelectual, estratégia de negócios, infraestrutura e atividades reguladas.

Formado em Direito pela Universidade de São Paulo (“São Francisco”) com especialização em direito empresarial, pós graduado em administração e em economia de empresas pela EAESP-FGV/SP, bem como em Gestão de Serviços Jurídicos pela mesma instituição. Pós-graduado em “Law & Economics” pela Escola de Direito da FGV/SP, especializado em Direito Empresarial pela Escola Paulista da Magistratura (EPM) e em Conselho de Administração pelo IBGC/SP. Mestre em “Direito Norte Americano e em Jurisprudência Comparada” pela “New York University School of Law” (NYU/EUA). É membro de diversos conselhos de instituições brasileiras e internacionais, autor de diversas obras sobre gestão jurídica estratégica e direito empresarial, professor em cursos de pós-graduação. Integra várias comissões e comitês de advocacia corporativa em São Paulo e em outros estados. É professor em cursos de especialização em Gestão Estratégica de Departamentos Jurídicos de Empresas na FIA e na FAAP, em São Paulo, e autor de livros sobre o assunto. Foi sócio do escritório Demarest e Almeida – Advogados onde atuou por mais de 20 anos, e também advogado estrangeiro no escritório Sullivan & Cromwell em NY e na Europa nos anos 1990.


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